O Cristão e a Ética da Comunicação
- Prof. Vinicius Augusto

- há 48 minutos
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O Cristão e a Ética da Comunicação
A comunicação não é apenas uma ferramenta sociológica de troca de informações; teologicamente, é um reflexo da Imago Dei (Imagem de Deus) no ser humano.
O Deus das Escrituras é um Deus que fala. Portanto, para o cristão, a ética na comunicação não se resume a boas maneiras, mas trata-se de um imperativo ontológico e santificador.
Exploraremos os princípios bíblicos que regem a ética da fala cristã, buscando compreender como nossas palavras podem servir como instrumentos de redenção ou de juízo.
A Palavra como Reflexo do Coração
Antes de analisarmos as normas éticas, precisamos entender a origem da fala humana. Jesus estabelece uma conexão indissolúvel entre a interioridade do ser e a exteriorização verbal.
"Raça de víboras! Como podem falar coisas boas, sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração." Mateus 12.34
A ética comunicativa cristã começa na antropologia bíblica. A corrupção da fala é sintoma de uma corrupção interior. Tiago, em sua epístola, apresenta a língua como um mundo de iniquidade que, embora pequeno, tem poder destrutivo desproporcional.
6 Ora, a língua é um fogo; é um mundo de maldade. A língua está situada entre os membros do nosso corpo e contamina o corpo inteiro, e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como também ela mesma é posta em chamas pelo inferno.
7 Pois toda espécie de animais, de aves, de répteis e de seres marinhos se doma e tem sido domada pelo gênero humano,
8 mas a língua ninguém é capaz de domar; é mal incontido, cheio de veneno mortal.
9 Com ela, bendizemos o Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos as pessoas, criadas à semelhança de Deus.
10 De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, isso não deveria ser assim.
11 Por acaso pode a fonte jorrar do mesmo lugar água doce e água amarga?
12 Meus irmãos, será que a figueira pode produzir azeitonas ou a videira, figos? Assim, também, uma fonte de água salgada não pode dar água doce.
Tiago 3.6-12
Assim, o esforço ético não é meramente cosmético, uma mudança de vocabulário, mas regenerativo, uma mudança de coração.
O Imperativo da Veracidade
Em uma era de pós-verdade e fake news, o compromisso do cristão com a verdade é inegociável. A mentira não é apenas um desvio moral, é uma antítese à natureza de Deus, que é a Verdade. O apóstolo Paulo, ao tratar da nova vida em Cristo, coloca a veracidade como pilar da comunidade cristã.
"Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros." Ef 4.25
A ética da veracidade exige:
Precisão Factual
Recusa em compartilhar informações não verificadas.
Integridade de Intenção
Não usar a verdade técnica para enganar ou manipular (a meia-verdade).
Coerência
A vida do comunicador deve validar a sua fala.
O Princípio da Edificação
A veracidade, contudo, não atua sozinha. A ética bíblica equilibra a verdade com a graça. A palavra grega oikodomé (edificação), refere-se ao ato de construir. A comunicação cristã deve ser arquitetônica: ela deve construir o outro, não demoli-lo.
"Não saia da boca de vocês nenhuma palavra suja, mas unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem." Ef 4.29
Note a cláusula conforme a necessidade. Isso implica sensibilidade situacional e empatia. A ética cristã pergunta: O que vou dizer é verdade? Se sim, é necessário? É o momento certo? Ajudará o ouvinte a crescer em graça?.
O silêncio, muitas vezes, é a resposta ética mais eloquente.
A Moderação e a Temperança Verbal
A agressividade, o sarcasmo destrutivo e a polêmica vazia são condenados pelas Escrituras. O cristão é chamado a exercer o Fruto do Espírito (Gálatas 5.22-23) também em sua retórica, seja ela presencial ou digital. Paulo instrui os colossenses sobre a textura da fala cristã:
"Que a palavra de vocês seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibam como responder a cada um." Colossenses 4.6
Temperada com sal sugere preservação e sabor. A nossa comunicação deve impedir a putrefação moral do ambiente e, ao mesmo tempo, despertar o interesse pela beleza do Evangelho. Além disso, Tiago nos oferece a regra de ouro da etiqueta comunicativa:
"Saibam isto, meus amados irmãos: todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar." Tiago 1.19
A ética da escuta precede a ética da fala. Em um ambiente eclesiástico ou não eclesiástico, a prontidão em ouvir demonstra humildade intelectual e respeito pela Imago Dei no outro.
Aplicação Contemporânea
O Cristão nas Redes Sociais
A ética bíblica não muda com a tecnologia. Os princípios de Provérbios ou das Epístolas são perfeitamente aplicáveis ao Twitter, Instagram ou WhatsApp. O anonimato ou a distância física das telas não isentam o cristão do mandamento do amor.
Ao compartilhar, comentar ou publicar, o cristão deve submeter seu conteúdo ao crivo das Escrituras:
Isso glorifica a Deus?
Isso promove a justiça e a verdade?
Isso protege a reputação do próximo, mesmo que este seja um inimigo ideológico?
A comunicação ética para o cristão é um ato de adoração. Nossas palavras têm o poder de abençoar ou amaldiçoar, de curar ou ferir. Como portadores da mensagem da Reconciliação, não podemos permitir que nossa própria comunicação seja um obstáculo ao Evangelho.
Que a nossa oração diária seja a do salmista, reconhecendo nossa total dependência da graça divina para governar nossa língua:
"Põe, SENHOR, uma guarda à minha boca; vigia a porta dos meus lábios." Salmos 141.3
Deus os abençoe!
Soli Deo Gloria.




Precisamos vigiar mais!!! kkk